miércoles, 31 de octubre de 2007

morriña & co.

El rubio se ha ido y la melancolía me ha visitado, de la mano de la distensión muscular. Pensé que no llegaría, pero ha llegado.

Por si alguien me ha hecho vudú (el ex-novio del casero, quizá, con el que tuve una discusión hace poco), he puesto unas velas a los orixás en los tachos junto a las escaleras, que parece que van bien para eso. Y un chorro de cachaça para Xangô y Xapanã, que con un puntillo seguro que me serán más favorables.

Saudades de no se sabe qué... De los días de invierno gallego confinado en casa, quizá. De paseos bajo el frío y la lluvia en una ciudad que no era la mía. Melancolía de la melancolía. Aquí el sentimiento es, en ralidad, bastante efímero e inconsistente.

A veces juego a imaginar los estados de ánimo como seres vivos. La nostalgia sería entonces como una efímera, pues, que vuela torpemente antes de su muerte, y el enfado una pitón siendo molestada, siseante y con la cabeza encogida, a punto de atacar. La angustia una ceiba abrazada por un ficus y la soledad el gavilán que se posa en la antena frente al balcón, y al que los bentevés atacan en grupo y con saña, entre piruetas de ira. El bemtevicinho la timidez, siempre a unos metros de sus primos los bentevés, buscando bichos que comer en solitario. Las termitas macho que revolotean de noche alrededor de la lámpara son la amargura, y sólo el beijaflor al amanecer trae alegría, y los pericos emoción. Las golondrinas tornasoladas el nervio. El escarabajo pelotero que entra en la cocina dándose contra los muebles, simpatía. Por último, la esperança, que ha llegado del jardín de al lado y se ha posado en la mesa mientras desayuno.

3 comentarios:

mico-leão dijo...

creo que te va a gustar:

Vi um tejuassu escrevendo
Vi um tamanduá fiando
Uma raposa bordando
Uma tacaca tecendo
Vi feio macaco lendo
Lagarta fazendo telha
Um bando de rã vermelha
Trabalhando num tapume
Vi um tatu com um cortume
Curtindo couro de abelha
Vi um quati marceneiro
Vi um porco agricultor
Timbu velho entalhador
Um veado sapateiro
Um furão como ferreiro
Uma cotia tocando
Quatro preguiças dançando
Um guará vendendo covos
Um coelho batendo ovos
E um jabuti cozinhando
Vi cassaco numa tenda
Vi um camaleão cantando
Um peru vi demarcando
Vi galo vender fazenda
Um rato fazendo renda
Vi bode serrando ripa
Vi burro fazendo pipa
Um cão fazendo papel
Dois sagüis comprando mel
E um gato vendendo tripa
Vi formiga de chocalho
Formigão de granadeira
Vi dois camarões na feira
Comprando queijo de coalho
Um calangro no trabalho
- melado de mel de furo
Duas ribas num buraco
Plantando de noite e dia
Imboá na freguesia
Tomando dinheiro a juro
Vi mosca batendo sola
Mucuim tocando flauta
Caranguejo de gravata
E pulga tocar viola
Vi cobra jogando bola
Catita a tocar num busso
Punaré fazendo fuso
Um lacrau no desempate
Besouro como alfaiate
Talhando roupas de uso
Mosquito fumar cigarro
Dois mocós puxando um carro
Cururu cantando moda
Duas gias numa roda
A calafetar um barco
E muriçocas de saco
Comprando peixe na praia
Vi duas éguas de saia
E um aratu com um arco
Vi jumento num bilhar
Pegando mesmo no taco
Lagartixa de navalha
Fazendo as barbas dum sapo
E, comendo de toalha
Um anum de guardanapo
Vi peixe bom fogueteiro
Comprando material
Vi papavento mandar
Na rua trocar dinheiro
Vi coruja de embornal
Numa estrada caminhar
Carrapato reboleiro
Comendo farofia pura
Um bando de tanajura
Almoçando num hotel
Um percevejo de pé
C’um cesto de rapadura
Um gavião coronel...

Barroso, Gustavo. Ao som da viola.

bushman dijo...

Adorei! só me estressei um pouco por não conhecer a metade desses bichos. O poema é massa!

J dijo...

"Aqui em casa pousou uma esperança. Não a clássica, que tantas vezes verifica-se ser ilusória, embora mesmo assim nos sustente sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o inseto.

Houve um grito abafado de um de meus filhos:

- Uma esperança! e na parede, bem em cima de sua cadeira! Emoção dele também que unia em uma só as duas esperanças, já tem idade para isso. Antes surpresa minha: esperança é coisa secreta e costuma pousar diretamente em mim, sem ninguém saber, e não acima de minha cabeça numa parede. Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá estava ela, e mais magra e verde não poderia ser.

- Ela quase não tem corpo, queixei-me.

- Ela só tem alma, explicou meu filho e, como filhos são uma surpresa para nós, descobri com surpresa que ele falava das duas esperanças.

Ela caminhava devagar sobre os fiapos das longas pernas, por entre os quadros da parede. Três vezes tentou renitente uma saída entre dois quadros, três vezes teve que retroceder caminho. Custava a aprender.

- Ela é burrinha, comentou o menino.

- Sei disso, respondi um pouco trágica.

- Está agora procurando outro caminho, olhe, coitada, como ela hesita.

- Sei, é assim mesmo.

- Parece que esperança não tem olhos, mamãe, é guiada pelas antenas.

- Sei, continuei mais infeliz ainda.

Ali ficamos, não sei quanto tempo olhando. Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em Roma o começo de fogo do lar para que não se apagasse.

- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e pensa que só pode andar devagar assim.

Andava mesmo devagar - estaria por acaso ferida? Ah não, senão de um modo ou de outro escorreria sangue, tem sido sempre assim comigo.

Foi então que farejando o mundo que é comível, saiu de trás de um quadro uma aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a" aranha. Andando pela sua teia invisível, parecia transladar-se maciamente no ar. Ela queria a esperança. Mas nós também queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que comê-la. Meu filho foi buscar a vassoura. Eu disse fracamente, confusa, sem saber se chegara infelizmente a hora certa de perder a esperança:

- É que não se mata aranha, me disseram que traz sorte...

- Mas ela vai esmigalhar a esperança! respondeu o menino com ferocidade.

- Preciso falar com a empregada para limpar atrás dos quadros - falei sentindo a frase deslocada e ouvindo o certo cansaço que havia na minha voz. Depois devaneei um pouco de como eu seria sucinta e misteriosa com a empregada: eu lhe diria apenas: você faz o favor de facilitar o caminho da esperança.

O menino, morta a aranha, fez um trocadilho, com o inseto e a nossa esperança. Meu outro filho, que estava vendo televisão, ouviu e riu de prazer. Não havia dúvida: a esperança pousara em casa, alma e corpo.

Mas como é bonito o inseto: mais pousa que vive, é um esqueletinho verde, e tem uma forma tão delicada que isso explica por que eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca tentei pegá-la.

Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma esperança bem menor que esta, pousara no meu braço. Não senti nada, de tão leve que era, foi só visualmente que tomei consciência de sua presença. Encabulei com a delicadeza. Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora? que devo fazer?" Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada.

"Uma Esperança", de Clarice Lispector. Está en Felicidade Clandestina.

Es uno de mis cuentos favoritos de todos los tiempos. Así, exactamente así, me gustaría escribir. Te lo mando con beijoes e abraçaos. Nunca sobra esperança, no? (me gustó mucho esta entrada)